As cidades e o desejo
No centro de Daniela, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de
metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera,
vê-se uma cidade azul que é o modelo para uma outra Daniela. São as
formas que a cidade teria podido tomar se, por uma razão ou por outra,
não tivesse se tornado o que é atualmente. Em todas as épocas, alguém,
vendo Daniela tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la
na cidade ideal, mas, enquanto construía o seu modelo em miniatura,
Daniela já não era mais a mesma de antes e o que até ontem havia sido
um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de
vidro.
Agora Daniela transformou o palácio das esferas em museu: os
habitantes o visitam, escolhem a cidade que corresponde aos seus
desejos, contemplam-na imaginando-se refletidos no aquário de medusas
que deveria conter as águas do canal (se não tivesse sido dessecado),
percorrendo no alto baldaquino a avenida reservada aos elefantes
(agora banidos da cidade), deslizando pela espiral do minarete em
forma de caracol (que perdeu a base sobre a qual se erguia).
No atlas (...) devem constar tanto a grande Daniela de pedra quanto as
pequenas Danielas das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente
reais, mas porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado
necessário, mas ainda não o é; as outras, o que se imagina possível e
um minuto mais tarde deixa de sê-lo.
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