Wednesday, September 12, 2007

perdoem o Ctrl C Ctrl V


O controle-remoto.
De Leo Jaime.

Há um certo tipo de motorista que todos conhecem: agoniado, não pode
esperar um segundo; não cede a vez e parece estar com o pai na forca, ou com
a mulher parindo no banco de trás. Fico imaginando enredos para as pessoas
que vejo passando e que me chamam a atenção, mas para esse personagem só
imagino uma história: essa pressa toda servirá para que ele chegue uns 3
minutos mais cedo em casa; estressadão. Somos o que somos quando ninguém nos
olha. E o anonimato que o interior de um carro nos proporciona pode revelar
uma grosseria velada e contundente.
Uma vez em casa, se o tipo for um homem - e em geral o é - o destino é
certo: vai para o sofá. O sofá é o Éden, o paraíso conquistado pelo
competitivo homem moderno. Dono do seu território, carregará como símbolo de
seu poder, à guisa de cetro, o controle-remoto. E é por essa patética cena,
o pequeno reino e seu cetro mágico, que este pobre homem há de aporrinhar
todos no trânsito. Abro parênteses para mencionar isso: - não há nenhum
impropério mais apropriado para rusgas no trânsito que o publicável e
familiar ³palhaço!². Fecho parênteses e inicio outro parágrafo. Ponto.
Quando reconheço um destes tipos na academia, penso logo: - ³esse cara
está levantando cem quilos aqui e quando chegar em casa vai usar o
controle-remoto² . Ora, e é isso o que eu quero dizer: - o controle não é
uma comodidade, é um símbolo de poder. Este cidadão que quer perder peso e
ficar em forma não deveria evitar um exercício moderado e gratuito. Sim, mas
ele não pode dispensar, também, uma chance destas, de se sentir o tal, o
bonitão da bala Chita.
Seu poder será exercido em cima de uma só pessoa: a mulher. Os filhos,
se houver, estão liberados para ver TV no quarto, mas a mulher não pode
arredar pé. Ele chegou, está no sofá e lá, até que ele comece a roncar, é o
lugar dela. Oras! A opção é negociar a novela por uma salubérrima tromba, já
que ele quer assistir à quinta versão das mesmas notícias em outro canal.
Quando começar um filme, ele pulará em cada comercial para uma seção de
zaping. E demorará muito mais tempo que o do intervalo no filme. Você vai
perder umas cenas e ele não vai se tocar. Ele está ziguezagueando,
ultrapassando os canais, como faz no trânsito. E
assistirá a TV com o controle na mão, editando as cenas de acordo com o
próprio interesse, e te deixando cada vez mais furiosa. Se é que você tem
um desses em casa.
Esta é a última instância do ancestral poder machista. Você precisa
fazer alguma coisa, imediatamente. Ele precisa saber dos seus gostos, das
suas vontades, e deixar você ficar com o controle um tempo para observar
onde sua mente passeia.
Se você fizer uma analogia de tudo o que apontei aqui, e acrescentar
além de trânsito e TV, o que acontece no quarto, poderá ter boas surpresas.
Há no controle-remoto, mesmo com as pilhas já cansadas, um remoto controle.


Leo Jaime é cronista do Blônicas.

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