Socorro!
De Nelson Botter.
Ano novo é uma maravilha mesmo. Todo mundo diz que agora vai, dá-lhe mudanças, tudo em ritmo do sambão entoado pela Simone e Beth Carvalho, na vitrolinha de 33 rotações, LP de 1976, e depois pra rebater vem o Rei, aquele das madeixas encaracoladas e do medalhão no peito, confirmando tudo, com sua canção que ecoa: “... daqui pra frente, tudo vai ser diferente...”.
Enquanto os fogos explodem, as pessoas se abraçam, riem, choram, cantam, beijam, fazem mil e uma simpatias, aproveitam a muvuca pra sumirem com a cunhada, bebem toda a cidra sozinhos, choram mais um pouco e prometem, prometem, prometem... e como prometem! Se promessa pagasse imposto nessa época do ano, o governo já garantiria a verba anual pra pagar os 91% de aumento do congresso e mais bônus por projeto não analisado, não votado e não aprovado.
No dia seguinte vem a ressaca, não só a etílica, mas também a da lista de tarefas para o ano. Dá-se conta de que o check-list é gigante, metade das promessas já se perdeu na bebedeira, foi privada abaixo, e a outra metade é praticamente inatingível. Daí chega-se à conclusão que novas promessas terão de ser feitas, a lista precisa ser revisada, e a primeira de todas é proferida ainda no caótico trânsito da estrada, na hora de voltar para casa: “Nunca mais passo reveillon na porra da praia”. É igual àquela galera que ainda tomando glicose no pronto-socorro promete nunca mais colocar uma gota de álcool na boca. Ano que vem você estará lá de novo, rolando na areia e segurando o franguinho, não tem jeito. Xiii, o franguinho? Lá se vai a promessa da dieta equilibrada...
E depois de 7 horas na estrada, você chega em casa e liga a TV. O pior vem agora, lá está o messias do povo, discursando para uma multidão em Brasília. O que leva alguém até Brasília para assistir a cerimônia de (re)posse do presidente? Só pode ser claque, não é possível... mas, pensando melhor, se foi possível o messias ganhar novamente, logo é provável que aquele povo todo esteja lá por livre vontade mesmo. O Circo Brasil não cobra ingresso, pelo contrário, paga pra você assistir. Entre na lista do Bolsa-Voto ou qualquer coisa do gênero. Tem cidade sobrando emprego, sem mão de obra, pois quem trabalha perde o direito de ganhar um tutuzinho na maciota. É sério, quer dizer, é risível.
Enquanto o presidente discursa, inventando uma nova língua portuguesa, os outros abaixam a orelha. E até ele faz suas promessas de ano novo. As mesmas de quatro anos atrás, afinal as promessas são sempre as mesmas, seja a de não passar mais reveillon na praia ou seja a de erradicar a fome no país. Fome Zero, País Zero, Governo Zero, e por aí vão os zeros... sempre à esquerda.
Enfim, terminadas as festas descobrimos que é isso aí, quem faz um ano ser bom ou não somos nós mesmos. Ainda bem. Já pensou se dependesse do Clô (que agora vai costurar em Brasília) ou do presidente-messias e sua terra “prometida”? Como diria Inri Cristo: “Valha-nos, oh Paaai”. Portanto, prometa menos e faça mais. Já é um bom começo para este novo começo... e olha que 2007 promete, hein!
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