Pés suspensos
April 19th, 2006
"ela chega em casa
e os dedos descansam-cansam no teclado preto,
esperando um pouco dele
invadir o quarto amplo
e pousar nos seus cabelos,
colo, ombro e rosto quietos.
ele coleciona cartas dela
e ela coleciona calos nos dedos de escrever
e de fingir, nas linhas conhecidas,
que a saudade é bem menor
do que a que realmente sente.
os dias sem ele são
assim-assim,
cheios de clichês repetitivos,
de sopa, livros e cigarros,
fumados até queimar a boca,
manchar os dentes
e fazer arder os olhos.
ela trocaria todo esse horizonte conhecido,
mar-sol-brisa,
pelo jardim-cinza-concreto
da casa nova dele,
dos rostos-caricaturas,
da velocidade e do anonimato.
ela trocaria os pés no chão,
pelos pés no alto,
equilibrado em linha e céu,
sem colchão inflado para aparar a queda.
ela rabisca vida nos cadernos novos,
enquanto espera impaciente
pelas linhas de suas mãos,
pela certeza de sua boca,
pelo abraço confortável,
pelas palavras sinceras,
certas
e necessárias".
-Janaína Calaça -
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