
TRIPA DE LERÉIA
Pagã triste sem flores no regaço
Um dia, (pode ser que esteja chovendo)
Eu vou te contar
Da náusea que eu sentia
Da febre que me ardia
E de todas as vezes que vomitei a flecha preta do ciúme.
É irônico, eu sei
Era pra ser o multiplicador do amor
Mas foi ela mesma quem me contou
Daquela atriz dizendo
Que tem hora que a gente não dá conta mesmo
Tem hora que a gente afrouxa...
É irônico, eu sei
Ela me disse há mais tempo
E eu achei que já sabia
Que nada!
Fui saber depois
Dessa fraqueza nossa de cada vida
De cada dia
E ela dizia: “Mas você o ama!”
E ela gritava: “Mas você o ama?”
E naquele apelo amoroso
Meus ouvidos só sentiam
A canção lúgubre que pairava
Pela sala, pela estrada
O piano seco do ciúme.
É irônico, eu sei
Se eu estivesse aí onde esteve você
Se sentisse as flechadas tantas que levou
Morta eu jazia, há tempos.
Mas não há jeito
Eu me via, bem ferida na garganta.
Um dia (pode ser que anoiteça) eu vou te contar
Das quantas vezes que minha cabeça rodava
E do quanto eu nadava
E da correnteza que você era a meu favor
Mas ela disse, ela mesma
Que tem hora que a gente não dá conta mesmo
E eu já havia te dito: “Eu não sei lidar”.
...
E foi então que Bentinho esteve lá em casa
Sentou ao meu lado, bateu em meu joelho
Disse: “eu te entendo, minha filha”
(E talvez eu já fosse, então, louca)
Eu já sabia de tudo
Você não precisava confirmar
Eu queria ficar longe
Eu queria ir pra casa
E a cada vez que eu vomitava
A flecha preta do ciúme
Mais ainda eu queria me afastar
De vocês dois...
...
Acontece que eu criei
Uma mania bem estranha
Um jeito estúpido
De só aceitar a condição
De ter você só pra mim.
Eu sei, não é assim
(e como ser?)
Mas quando eu me debruço naquela janela
Eu começo a fingir
(Na hora)
E rir...
Acontece que virá esse dia
(pode ser que o sol nasça e a gente não veja)
E eu vou te contar
Que eu sempre soube que era um doce te amar
Mas eu provei do amargo de te querer pra mim.
Não era pra ser, eu vou te contar isso também
Que eu nunca duvidei
Você imaculado
O quanto disso que eu já sei.
Mas eu tinha que abrir mão de alguém
E sem ela não dava
Sem você não deu.
É irônico, eu sei
Porque você ainda está aqui
No charuto, ou na cerveja de Aladim
Na boca, no pircing
Na asma, no murinho
Nos gatos, nos terços, nas terças
(nas segundas não)
Nos momos, nas mamas
Eu me debati, te bati
Virei do avesso, e te cuspi
Saí de mim mesma
E você continua aqui
Nas paredes (quaisquer)
No vento que entortou a flor
Nos cheiros, nos livros, nos sonhos
(e às vezes bate um frio, mas é o mundo que anda hostil)
Nas esquinas, nos parques
Nas sedes, nas borboletas amarelas (dessas comuns)
Na maneira de passar o copo de vinho.
!
Acontece que eu vou te contar
E quando eu falar e chorar
(E quando eu tiver fé e vir coragem no amor)
E te lembrar da estranha maneira
Que você chegou sorrindo
Como se fosse a primavera
E eu morrendo
E quando eu cantar
(Na minha voz que ainda arde)
E murmurar que tudo ainda é perda
Que tudo quer buscar
Ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Mas você já estará surdo
(de mim).
E no afã de te contar
Das coisas mais lindas que eu conheci
Que reconheci minhas cores nelas quando te Vi
De fazer você enxergar
O amor que ainda há
Num golpe de pincel
Vou pintar em tela grande
Com meu sangue, seu giz, e bronze
Tudo aquilo que era pra ser, e não foi
( é possível tentar o pneumotórax?)
Vou pintar, com suas barbas e cabelos
Um barco a desaguar
O começo do fim
Pra te mostrar que ainda é
Pra te lembrar que o amor é tão maior
E então
Você já estará cego.
(em mim)
E no desespero da minha garganta seca
E do meu corpo todo que grita
Vou te contar
Vou pegar nos seus braços
Pra dançar a dança solta
Nua e louca
Pouca e só
Pra tentar mostrar ao teu corpo
Como foi que um dia eu me atirei
E fui brincar de ter ciúme de você
Mas sem querer meu coração
Me avisou que não
Era tarde
Mas eu vou bailar sobre as brasas
E arrastar seu corpo pesado
E no soluço de te amar ainda
(E pra enfim me apunhalar)
Você já estará morto
(pra mim)
!
E porque o amor é eterno
E constante
E infinito
Vou te velar,
Chorar
Te cobrir
E te ninar.
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