Friday, August 19, 2005
memórias... na falta de um título melhor
A nossa memória, assim como quase todas as características da natureza humana as quais não podemos alterar, beira a perfeição.
Apesar disso, às vezes minha imaginação passa pela possibilidade de conseguirmos guardar nossos momentos como um arquivo de flashs, imagens, sensações vivas (alguém já fez um filme sobre isso?).
Se assim fosse, quando conhecesse aquele ser fantástico que te faz sorrir o tempo todo e te faz brilhar os olhos, você lembraria imediatamente de antes do casamento, como seu marido era sensível. E concluiria que aquele ser que te faz sorrir hoje, também plantaria a monotonia amanhã.
(Ou então você vai ver que nunca foi feliz assim antes, nesse caso melhor trocar de marido).
Quando o seu sobrinho te pedisse pra ler o “João e Maria” pra ele pela décima vez só essa noite? Sua memória rapidamente localizaria a cena de você chorando pra ouvir de novo aquela musiquinha engraçada que o seu pai cantava quando viajavam pra praia no verão.
Se sua filha adolescente pedisse pra levá-la à festa lá do outro lado da cidade na noite chuvosa, dizendo que seria “o evento do século”, e você lhe devolvesse um não redondo só porque você está de pijama, e porque ela tossiu muito à noite; em um segundo você veria aquele lindo garoto te convidando pra dançar, e lembraria do quanto foi importante ouvir “Do you wanna dance, and hold my hand...” num baile há muuuuiiiiiitttooooo tempo.
E quando você abrisse o guarda roupa? Ao pegar aquela sandália maravilhosa pra fazer compras, sua memória quase projetaria na parede do seu quarto uma foto enorme do seu calcanhar todo arrebentado pela última vez que resolveu sair pra dançar com a bendita. E ainda mostraria, de brinde, você prometendo pra si mesma que só usaria aquela sandália pra jantares de negócios, breves.
Aquele xale importado? Você já tinha até esquecido, mas seus arquivos não te trairiam e você lembraria a tempo o quanto ele “pinica” quando usado diretamente sobre a pele.
Comer camarão? A sua garganta inflama, esqueceu?
Na verdade não esquecemos de nada disso, e nem das coisas muito maiores que carregamos no coração e que, apesar delas, tocamos a vida em frente. Mas nossas lembranças tornam-se mais brandas, leves...
Aquele lance de que depois de um tempo tudo fica engraçado? Passa por aí. Talvez Freud explique.
Na verdade, parece que não é bem a nossa memória que beira a perfeição. Talvez seja o nosso esquecimento.
Se não fosse assim, manteríamos não só a euforia de alguns momentos viva em nosso coração, como as mais cruéis angústias.
Em contrapartida a todas as situações acima, se tivéssemos a chamada “memória de elefante”, nunca mais amaríamos, pois sempre que lembrássemos daquele “fóra”, sentiríamos a mesma tristeza. Não constituiríamos família, porque a dor da perda daquele ente querido seria sempre lancinante. Não comeríamos mais sorvete de cereja, pois passaríamos mal de novo só de lembrar daquela indigestão! Não confiaríamos em mais ninguém, pela menor das traições. Não declararíamos mais nosso amor, por aquela resposta seca que ecoaria em todos os cômodos. Não deixaríamos nossos filhos brincarem no playground nunca mais, por não terem cumprido o horário no ano passado. Não amamentaríamos, porque na primeira gravidez o leite secou. Quando velhinhos, não jogaríamos “futebol de botão” com o neto mais velho, pois derrota no campeonato estudantil rondaria o tempo todo.
Nossa memória e esquecimento são na medida certa, e eu discursaria por um bom tempo sobre as explicações que me são lógicas pra isso, mas não é o caso. Só não me privo de dizer que, o que enxergo nisso tudo é que o ser humano foi “feito” pra viver do presente, respeitando o seu passado sim, mas não se prendendo a ele. Olhar para o futuro sim, mas sem demasiados planejamentos.
Eis o tempo, regente de todas as coisas.
Ouço por aí que o tempo não cura tudo. Ele apenas desloca o incurável do centro das atenções.
Deve ser mais ou menos isso.
E você, o que vai viver hoje?
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