Esses dias, depois de muito tempo, chamei o Txula, meu cachorro de pelúcia pra dormir comigo... Como nos velhos tempos. Ficamos lá, abraçados um tempo sem dizer muitas coisas... Coloquei-o sob a minha cabeça, em cima do travesseiro, como faço às vezes, depois o voltei ao meu lado. Eu estava pensando sobre assuntos diversos e, como a mente e seus pensamentos seguem por caminhos tortuosos, fazem curvas perigosíssimas e costumam, com demasiada freqüência atropelar as idéias, acabei me lembrando de um amigo que sofre de insônia. Eu costumo dizer a ele que é porque trabalha demais e ele responde sempre um “é”, meio vago. Disse isso ao Txula e ele me explicou, vagarosamente, com sua voz preguiçosa de sempre, que o que o meu amigo deveria fazer era, chegar em casa, tomar um banho quente, comer pouco, mas o suficiente, escovar os dentes, fazer xixi, arrumar-se na cama da forma mais confortável que puder, apagar a luz e dormir.
Falei então, carinhosamente ao meu doce amigo de pelúcia, que se isso dissesse ao meu amigo, ele consideraria óbvio, como eu tinha acabado de constatar. Mas Txula, em sua sabedoria, me garantiu que funciona; e me explicou que esse ritual - o banhar, o comer, o xixi, et caetera - permite ao corpo, que ao contrário do que a maioria acredita é um ser independente da gente, notar que a intenção é deixá-lo descansar, enquanto passeamos na garupa da mente nos descampados dos sonhos.
Apesar de ter sido eu quem começou o assunto, vi que a fala do meu cachorrinho – que já conheço de outros carnavais - queria alcançar outro lugar. Sem contrariar minha previsão, ele prosseguiu dizendo que um relacionamento também precisa de um certo ritual pra acontecer. Com a testa franzida, e sem nenhum sono, perguntei ao Txula o que ele chamava de “ritual” num relacionamento. E ele foi enumerando características, como: papo bom (se você se cansou do papo, cansou da pessoa); cheiro bom (importantíssimo e sem mais comentários) e presença (que pode significar muita coisa, menos sumir mais de um ano).
Fiquei um tempo caladinha... Não é que o meu querido canino tinha razão? Ele estava falando dos elos, das químicas. Claro que ele não pisou no campo do amor... Assim como no conselho da insônia, hora alguma ele falou de sono.
Depois de uma lambida de boa noite, deixei-me cair nos braços de Morpheu, não sem antes digerir e entender bem as idéias daquele companheirinho: realmente, até mesmo os relacionamentos humanos precisam de um ritual. Não cumpri-lo algumas vezes não causa mal algum, mas não cumpri-lo durante muito tempo prejudica e esboroa tudo o que existir de bom entre duas pessoas.
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